Memórias perdidas

Parte IParte II – Parte III – Parte IV

Durante o restante daquele dia, ela não passou bem. Além de uma dor de cabeça insuportavel, seu corpo doía e tudo ao seu redor parecia se agitar.

— Eu não estou ficando doida, não, não estou. — dizia constantemente a si mesma. Tudo estava diferente, estranho e nada fazia sentido. Sua mente estava muito confusa…. Bebês… aqueles dois bebês. Será que a criança misteriosa que deixou os doces para ela era um dos bebês que ela estava tentando salvar na visão? Sua mente não a ajudava, suas memórias não estavam lá, nenhuma lembrança vinha a mente. A sensação era que haviam jogado-a em outra vida, sem direito de ter suas memórias antigas. Ou será que fizeram isso para protegê-la?

Todas essas perguntas a atormentavam e em meio ao sentimento de medo e preocupação, ela sentiu saudade. Não sabia exatamente do que ou quem estava sentindo aquilo, mas era uma tristeza imensa estar longe de uma pessoa que era extremamente importante em sua vida. Mas a dor era ainda pior por não saber quem era essa pessoa. Ela foi amaldiçoada a viver uma vida sem sentido, presa em um mundo estranho. Por isso que ela nunca se adaptou, por isso que tudo era difícil para ela. Agora fazia todo sentido: ela não pertence a esse mundo. Sentiu uma pontada de dor muito forte, era como se um punhal tivesse atravessado seu peito, e ela foi se sentindo fraca. Procurando um lugar para se sentar, passou em frente a um espelho e viu uma mancha de sangue em seu peito. No mesmo momento, ela entrou em desespero, sentia tontura, tudo ia se esvaindo, e ela parecia estar morrendo.

Caminhando devagar em direção à mesa para pegar seu celular, com certa dificuldade ela o alcançou. Enquanto tentava falar com alguém mas ninguém atendia, chegou a seguinte mensagem:

       “Seu 1º teste é se livrar desse ferimento. Você um dia jurou pela magia da sua vida que iria encontrar uma solução. Eu deixei um presentinho pra você quando chegou ao mundo humano, espero que ele possa te ajudar. Lembre-se disso: Você é a guardiã. Encontre aqueles que precisam do seu cuidado, seja corajosa, não deixe o medo te controlar e confie em você!”

 — Eu? Jurei pela magia da minha vida? Isso fica pior a cada minuto que passa. — olhando para os lados em busca de que pudesse ajuda-la, vem a sua memória um velho baú que surgiu no meio de suas coisas quando ela estava se mudando para esse apartamento onde hoje mora. — ESPERA! — apesar da dificuldade em falar, essa frase saiu em voz alta, como se algo tivesse despertado dentro dela. — Eu tenho magia? — imediatamente se lembrou que no baú havia uns livros que contavam a história de guardiãs de um reino encantado, com belas gravuras e informações detalhadas. — Eu? Uma guardiã? Mas olha o meu tamanho! Eu sou baixinha, fraca, não aguento nem uma luta se tivesse que lutar contra alguma coisa!

Mesmo que instintivamente, Alice guardou a chave do baú em um lugar seguro. O baú estava guardado em seu quarto e era do tamanho de uma caixa de sapato, só um pouquinho maior. Era todo talhado em desenhos que Alice nunca havia notado, mas eram belos arabescos, os mesmos que havia na caixinha dos doces. Alice levou um susto ao entrar no quarto e se dar conta desse detalhe, aquele baú era realmente importante. Os arabescos do baú cintilavam um brilho dourado e intenso. E o brilho era tão intenso, que clareava o quarto todo.

Ela foi diretamente para onde a chave do baú estava guardada. Abriu a porta do armário, foi até o local onde guardava seus colares e no fundo, pegou a chave que estava embrulhada em um tecido de linho marron. Assim que a pegou em mãos, a chave estava em um tom tão luminoso, parecia ter acabado de ser cuidadosamente polida. Em suas mãos, a chave começou a brilhar, começou a emanar uma luz muito semelhante a do baú na chave, a impressão que ela teve era de que a chave pulsasse desejando abrir o baú, desejando revelar um segredo há tanto tempo guardado, agora que Alice recuperou parte importante de sua memória, ainda havia mais e o baú era o primeiro passo para descobrir quem realmente é.

Apesar da dificuldade em andar, ela sentia a magia que emanava da chave e isso a dava força a cada passo em direção ao baú.

Ela o pegou, encaixou a chave e girou. Respirou fundo, sabia que a partir dali sua vida seria bem diferente. Estava disposta a aceitar toda essa loucura, estava cansada de se esconder. Semicerrou os olhos e abriu.

Sem Comentários

Comente aí!